Escola: espaço privilegiado de ensino. Mundo: espaço privilegiado de aprendizagem.

A reflexão abaixo foi escrita, originalmente, para uma discussão no Facebook, que teve início a partir de um post meu que dizia: “Cada vez mais me convenço de que a escola é um espaço privilegiado de ensino, enquanto o mundo, do lado de fora da escola, é o espaço privilegiado de aprendizagem. E a educação está presente tanto na primeira, quanto no segundo… (Hoje eu quase apanhei por “pensar alto” sobre isso…)”.

No Facebook, muitas pessoas se manifestaram a favor dessa ideia, e algumas nem tanto. Mas, fora do Facebook, em outro contexto, essa ideia foi frontalmente rebatida. Resolvi transcrever aqui meu comentário do Facebook, porque acho que ele explora bem essa ideia (embora, ainda tenha muito mais coisas entaladas na minha garganta, que eu ainda pretendo escrever).

Segue a transcrição.

É curioso como uma crítica à soberania, onisciência e onipotência da escola é rapidamente interpretada como um discurso de desescolarização anárquico. Não que eu não simpatize com muitas das ideias de Ivan Illich… Mas também não significa que eu tenha levantado a bandeira da “morte à escola”.

Tenho plena consciência de que, para muitos, a escola fez (e continuará fazendo, eu espero) toda a diferença, proporcionando uma oportunidade de transformação de sua própria realidade (embora nem todos precisem transformar sua realidade…). No entanto há várias questões que estão por trás dessa crítica (e desse levante à crítica) que me preocupam e que merecem ser discutidas, sim…

Em primeiro lugar, achar que a escola é a salvadora da Pátria de todos é um engano. Há muita gente que aprende fora, tudo o que a escola ensina (e aprende melhor). Esse é o problema da generalização, da padronização, da centralização, do tamanho único… Além disso, nem sempre o que se ensina é aprendido, mas o que se aprende, se aprende. E o resultado da educação não é o ensino, mas a aprendizagem. Essa é uma das sutilezas da frase do post, que gerou essa discussão.

O segundo problema é achar que a escola é a única possibilidade de transformação. Ela pode ser uma, mas certamente não é a única. Melhor seria se ela se destituísse de sua arrogância, e permitisse que outras instituições coexistissem com ela nessa nobre missão de transformar o mundo. Juntas, diversas instituições poderiam proporcionar experiências de aprendizagem muito significativas para todos. É mais uma questão de quebra de monopólio, se me permitem esse perigoso sequestro semântico.

As mesmas pessoas que se levantam contra essa crítica à escola (normalmente pessoas que trabalham com educação, muitas vezes até em sala de aula) sabem perfeitamente que a escola não está dando conta de sua função, não apenas pelos resultados das avaliações nacionais e internacionais, mas pelo que salta aos olhos quando se entra em uma escola média, e se constata que grande parte dos alunos está desinteressada, que só faz as tarefas (quando faz) em troca da nota que precisam receber (precisam para quê?), que chega ao final do Ensino Fundamental sem ter desenvolvido algumas competências tão básicas como o domínio da língua materna. Essa escola que está aí hoje carece de profissionais qualificados (o que não pode ser traduzido por escolarizados ou titulados), valorizados, motivados, mas também não é competente na busca soluções para esse problema.

E o que falar dos poucos professores que, privilegiados, e a despeito de todas essas dificuldades, tendo essa qualificação, motivação, paixão, são veementemente censurados pelo próprio grupo ao tentar propor alguma ideia diferente dos outros. Pensar diferente do grupo é difícil. E essa pressão é muito mais forte do que se pode imaginar. Essa cultura da manutenção da realidade, do “fazer dessa forma porque sempre foi assim”, tem mantido a escola congelada, refratária a qualquer possibilidade de transformação, de inovação durante séculos. Quando, uma experiência mais interessante consegue adentrar a escola é pelas portas do fundo, e só sobrevive se quem a colocou lá dentro tem bastante estômago para aguentar as represálias que vêm em forma de isolamento, pelos próprios colegas, ou de perseguição, pela direção e coordenação.

E esse fenômeno não acontece apenas na escola pública. Na escola privada é o medo de perder matrículas que age, fazendo com que a direção mantenha o freio, de acordo com o que os pagantes opinam.

E isso eu denuncio não de forma irresponsável, ou baseada em achismos. Falo como alguém que conhece a escola, não apenas porque esteve em sala de aula até dois anos atrás, mas como alguém que conhece bastante teoria a respeito (sou Pedagoga e fiz Magistério), já andou por muitas escolas diferentes, especialmente públicas, trabalhando com formação de professores, e é entusiasta, estudiosa e apaixonada pela causa da educação, especialmente a Educação Básica.

Bons profissionais existem, sem dúvida, mas eles são cerceados o tempo todo pela burocracia, pela rotina exaustiva de quem tem de passar várias horas seguidas e (muitas vezes) ininterruptas com os alunos (como se esse estar junto fosse sinônimo de educação de qualidade), pelas barreiras regimentais da escola ou do sistema de ensino, e pela vaidade dos seus superiores e de seus pares.

Essa escola sequer tem conseguido preparar o aluno para a própria escola, quanto mais tem o ajudado a viver a vida real.

Se por muitos anos (muitos mesmo… desde que existe nesse formato como a conhecemos) a escola pôde se dar ao luxo de se manter acima do bem e do mal, estacionada no mesmo lugar, enquanto o mundo lentamente se transformava, agora dificilmente ela conseguirá sustentar essa posição. Hoje o mundo é mais veloz. Grandes mudanças transformam o mundo e a vida das pessoas, enquanto uma geração de estudantes sequer concluiu o Ensino Fundamental.

Isso não é uma projeção apocalíptica. Isso é o presente.

Mesmo que eu não deseje a morte da escola, não posso deixar de me perguntar: Até quando ela sobreviverá, agonizando como está?

Em São Paulo, 06 de Maio de 2011.

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Sobre Paloma Chaves

Mestre em Educação: Currículo pela PUC-SP, pedagoga, pesquisadora na área de avaliação de competências, especialista no uso pedagógico da tecnologia, consultora na área de educação e tecnologia, e professora da área de tecnologia no Colégio Visconde de Porto Seguro, Membro do Conselho Consultivo da ONG Instituto Paramitas. Reside em São Paulo e é casada com Eduardo Chaves.
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3 respostas para Escola: espaço privilegiado de ensino. Mundo: espaço privilegiado de aprendizagem.

  1. T. disse:

    Tenho um Cogumelo Mundo Feliz para venda. Caso estiver interessada, entre em contato por email. Obrigada.

  2. DEOCLÉCIO TADEU ALVES BARROSO disse:

    Um texto coerente, de quem analisa a escola numa perspectiva diferenciada…. É revolucionária atinge frontalmente o sistema de domínio!!! Também penso assim…. Estou num processo de seleção para diretor primeira batalha vencida, aproxima-se a segunda; Entrevista, entrega de currículo , chegando lá terei oportunidade de discutir, sonhar, semear, incomodar… UMA ESCOLA HUMANA…. QUE VENÇA TODOS OS MUROS…. QUE APRENDA E CAIA DO SEU APARENTE PEDESTAL!!!!!!!!!!!!

    • Paloma Chaves disse:

      Obrigada pelo comentário, Deoclécio! Desejo muito sucesso a você no processo de seleção pelo qual está passando.
      A escola precisa de gente apaixonada e disposta a incomodar, como você…
      Um abraço.
      Paloma

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